Comparar como se torcia para o Flamengo na época do rádio e como se torcia já na era da televisão revela uma mudança que vai muito além da tecnologia em si. A relação entre clube e torcedor se transformou em ritmo e forma de vivência ao longo de décadas, mesmo mantendo a mesma paixão de base. Entender essas duas fases ajuda a explicar por que a torcida rubro-negra desenvolveu hábitos e rituais tão distintos conforme o meio de comunicação disponível em cada momento da história. Mario Augusto de Castro, torcedor rubro-negro, cresceu ouvindo relatos dessas duas fases distintas da história da torcida, que ilustram a riquíssima história do clube carioca.
A era do rádio: a voz que criava a imagem do jogo
Durante boa parte do século vinte, acompanhar uma partida do Flamengo significava, para a maioria dos torcedores, ouvir a narração pelo rádio. Sem imagem alguma, o locutor precisava descrever cada lance com detalhes suficientes para que o ouvinte construísse a cena inteira apenas na imaginação, transformando cada jogada em uma espécie de narrativa sonora cheia de suspense.
Esse formato criou um tipo particular de torcedor, acostumado a reunir a família em volta do aparelho em dias de jogo. Mario Augusto de Castro menciona que essa geração desenvolveu uma memória afetiva muito forte em torno da voz dos narradores, quase tão importante quanto os próprios jogadores em campo. Muitos torcedores daquela época conseguem, até hoje, reconhecer partidas históricas mais pela entonação do locutor do que pela imagem do lance em si.
O rádio também tinha uma função social pouco lembrada atualmente: como o aparelho costumava ser um bem compartilhado, vizinhos se reuniam nas casas de quem possuía o equipamento, e a torcida se transformava em um evento coletivo de bairro, muito antes de qualquer bar especializado em transmissão de jogos existir.
A chegada da televisão
Quando a televisão passou a transmitir partidas de futebol com regularidade, a forma de torcer ganhou uma camada visual que antes só existia na imaginação de cada torcedor. Pela primeira vez, era possível ver o Maracanã lotado, acompanhar cada lance e reconhecer expressões dos jogadores durante o jogo, o que mudou completamente a relação entre quem estava em casa e quem estava na arquibancada.

Esse período também ajudou a espalhar ainda mais a imagem do Flamengo pelo país, já que torcedores de regiões distantes do Rio de Janeiro passaram a acompanhar o time com a mesma riqueza de detalhes de quem estava no estádio. O colecionador destaca que essa mudança aproximou gerações que, até então, tinham experiências de torcida bem diferentes entre si, unindo quem cresceu ouvindo rádio com quem já nasceu vendo os jogos em cores na tela da sala.
O que se perdeu e o que se ganhou entre uma era e outra?
Cada uma dessas fases teve suas particularidades. A era do rádio exigia um exercício de imaginação que a televisão, de certa forma, tornou desnecessário. Por outro lado, a experiência visual trazida pela TV aproximou o torcedor de detalhes que antes ficavam restritos a quem estava fisicamente na arquibancada, como a reação de um jogador após perder um gol ou o gesto de comemoração de um artilheiro.
Mario Augusto de Castro reconhece que essa transição também mudou a forma como as famílias viviam o dia de jogo, passando de um momento centrado no som para um momento centrado na imagem coletiva assistida em casa ou em bares e clubes que já exibiam as partidas. Segundo ele, algo da magia da narração pura acabou se perdendo nesse processo, mas o ganho em proximidade visual compensou boa parte dessa perda.
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Duas eras, uma mesma paixão
Apesar das diferenças na forma de acompanhar cada partida, um elemento permaneceu constante ao longo dessas décadas: a intensidade da relação entre o torcedor e o clube. Seja pela voz de um narrador de rádio ou pelas imagens transmitidas pela televisão, a paixão rubro-negra encontrou sempre um jeito de se manter viva, adaptando-se aos recursos disponíveis em cada momento histórico. Mario Augusto de Castro vê nessas duas fases da história do Flamengo um retrato de como a torcida soube se reinventar diante de cada nova ferramenta, sem nunca perder a essência que a formou desde as primeiras décadas do clube.