Em um contexto marcado por desigualdade de acesso à saúde, chegar à idade escolar sem nunca ter feito um exame oftalmológico é uma realidade para uma parcela significativa das crianças que frequentam a rede pública brasileira. O Projeto Visão em Dia, iniciativa do Instituto Visão Conectada idealizada por Franco Douglas Lima Dias, nasceu para intervir diretamente nesse vácuo. Desde o início das atividades, o programa já distribuiu cerca de 2 mil óculos gratuitamente a estudantes que, sem aquela triagem, seguiriam sem diagnóstico e sem correção visual.
Cada par entregue é precedido por uma avaliação individualizada. O programa não distribui óculos de forma genérica. Identifica o grau de cada criança, rastreia condições que vão além da miopia simples e só então encaminha a correção adequada. Para famílias sem condições de arcar com uma consulta particular, aquele atendimento representa, muitas vezes, o primeiro contato com um serviço de saúde ocular especializado.
O número acumulado de entregas cresce a cada novo ciclo de ações, e com ele, o retrato de uma necessidade que o sistema convencional ainda não consegue cobrir de forma ampla.
Por que tantas crianças chegam à escola sem nunca ter ido ao oftalmologista?
A resposta não está na falta de interesse das famílias. Está nas barreiras concretas que separam uma família de baixa renda de uma consulta especializada: custo, deslocamento, tempo de espera e, muitas vezes, a ausência de informação sobre a necessidade do exame. Uma criança que nunca apresentou queixa visual dificilmente será levada a um oftalmologista por iniciativa espontânea da família, especialmente quando os recursos são escassos e as prioridades são muitas.
Nas ações do Projeto Visão em Dia, essa realidade aparece de forma recorrente. Crianças que chegam ao atendimento sem histórico oftalmológico algum, com condições que já comprometiam sua rotina escolar há meses ou anos. A diretora da APAE de Ferraz de Vasconcelos, Lara Benute, resumiu o cenário com precisão ao comentar sobre os alunos atendidos pelo programa: “Todos os alunos que foram beneficiados não tinham condições financeiras para pagar uma consulta.”
O que muda quando o diagnóstico e a entrega acontecem no mesmo lugar?
Um dos aspectos mais relevantes do modelo adotado pelo Visão em Dia é a integração entre triagem e entrega dentro de uma mesma ação. A criança não precisa voltar em outro dia, não precisa aguardar um encaminhamento e não corre o risco de perder o acompanhamento no meio do caminho. O exame acontece, o diagnóstico é feito e, quando indicado, os óculos são entregues na sequência.

Para Franco Douglas Lima Dias, que cresceu sem acesso a esse tipo de serviço e desenvolveu ceratocone por falta de diagnóstico precoce, a lógica do programa reflete diretamente o que teria feito diferença em sua própria trajetória. Conforme pondera o idealizador do projeto, o objetivo é garantir que as crianças atendidas não percorram o mesmo caminho que ele percorreu, chegando tarde a um diagnóstico que poderia ter sido feito anos antes.
Quais condições o programa já identificou além da miopia comum?
A triagem realizada pelo Projeto Visão em Dia vai além da detecção de miopia e astigmatismo simples. Em uma das ações realizadas na APAE de Ferraz de Vasconcelos, dois alunos foram diagnosticados com ceratocone, doença degenerativa da córnea que exige equipamentos específicos para identificação e que raramente é rastreada em triagens básicas. Uma mãe presente na ação relatou que sequer sabia que o filho tinha miopia. O diagnóstico de ceratocone chegou como uma informação completamente nova para a família e para a instituição.
Segundo relatos colhidos nas ações do programa, casos assim aparecem com uma regularidade que evidencia o tamanho da lacuna preenchida pelo projeto. Cada nova escola ou instituição contemplada revela um conjunto de condições que o sistema convencional não havia alcançado.
Como o programa chegou à marca de 2 mil óculos distribuídos?
O crescimento do Projeto Visão em Dia foi gradual e estruturado. O programa começou atendendo escolas municipais e estaduais da região de Ferraz de Vasconcelos e foi ampliando seu alcance de forma consistente, chegando a 18 unidades de ensino contempladas e ultrapassando a marca de 5 mil atendimentos realizados. A expansão para instituições especializadas, como a APAE, representou um novo patamar de alcance, com um perfil de público que apresenta barreiras de acesso ainda maiores.
Na avaliação de Franco Douglas Lima Dias, cada novo ciclo de ações é também uma extensão do propósito que deu origem ao programa. O crescimento em números reflete o crescimento em alcance real: mais escolas, mais diagnósticos, mais crianças que chegam à sala de aula enxergando o que está à sua frente.
O que 2 mil óculos representam além do dado numérico?
Um par de óculos entregue a uma criança que nunca havia tido um não é apenas um objeto. É a correção de uma condição que, mantida sem tratamento, compromete o aprendizado dia após dia. É o acesso a um serviço que a família não teria conseguido alcançar sozinha. É, em muitos casos, o primeiro contato daquela criança com um sistema de saúde que reconhece sua necessidade e responde a ela de forma concreta.
O Projeto Visão em Dia, sob a liderança de Franco Douglas Lima Dias, construiu ao longo de sua trajetória um acúmulo de intervenções que se traduz nesse número: cerca de 2 mil óculos distribuídos, cada um resultado de uma triagem individualizada, cada um representando uma criança que vai para a escola diferente no dia seguinte.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez