Matheus Vinicius Voigt, profissional da área de engenharia elétrica e gestão de projetos, destaca uma questão frequentemente observada apenas após a definição da infraestrutura: o papel da automação no projeto elétrico urbano. Em diversas obras, ela ainda é apresentada como um recurso adicional, incorporado a uma rede já pronta, quando deveria atuar como um elemento orientador de decisões desde a fase inicial do projeto. Adiar essa definição pode resultar em custos elevados e limitar soluções que seriam mais simples de implementar durante a fase de concepção.
O objetivo deste artigo é apresentar os motivos pelos quais essa inversão de ordem representa um custo elevado em obras elétricas públicas, bem como as implicações da automação no projeto desde o seu início, em vez de ser implementada como uma resposta a uma demanda futura.
Decisões tardias elevam custos e dificultam a integração da automação à infraestrutura
O engenheiro Matheus Vinicius Voigt informa que a rede elétrica projetada exclusivamente para transmissão de carga, sem a previsão de sensor ou comunicação remota, pode resultar em retrofit dispendioso quando a cidade optar por automatizar o sistema posteriormente. É imprescindível a substituição do cabo, bem como a criação de espaço no quadro, uma vez que a obra original precisará ser refeita para acomodar o que deveria ter sido previsto desde o início.
Esse retrofit tardio também limita a capacidade da automação. O sensor instalado sobre uma rede não projetada para tal apresenta funcionalidade, embora de maneira parcial, sem a integração que o sistema teria se tivesse sido desenvolvido desde o início com a capacidade de operar de forma automatizada.
De acordo com Matheus Vinicius Voigt, a percepção do alcance do problema é facilitada por meio de um exemplo ilustrativo: uma subestação urbana, cujo projeto data de anos atrás, sem previsão de rede de dados, demanda uma obra civil adicional apenas para a instalação de um cabo de comunicação até o novo painel de controle. Em muitos casos, o custo dessa obra civil excede o valor do próprio equipamento de automação instalado.
Sensores, comunicação e controle passam a fazer parte das premissas do projeto elétrico
O primeiro efeito prático é visível na escolha do equipamento: o quadro de distribuição já é fabricado com espaço reservado para o módulo de comunicação. Inclusive, o cabeamento já prevê o caminho para o sensor e o sistema de telemetria, sem que seja necessário realizar obra alguma no futuro para criar esse espaço ou executar serviços de retrabalho civil meses depois da entrega do produto.

De maneira objetiva, Matheus Vinicius Voigt elenca os principais pontos da solução: após a implementação, o segundo efeito, mais duradouro, aparece na forma de gerenciar a rede. Em vez de depender de ronda física para saber o estado de cada trecho, a equipe passa a enxergar consumo, falha e sobrecarga em tempo real, direto de um painel de controle central.
Telemetria, proteção elétrica e gestão de projeto no mesmo critério
É vital que a proteção elétrica da rede tenha sido projetada para aceitar o sensor e o sistema de telemetria. O disjuntor, o relé e o sistema de aterramento devem ser compatíveis com o protocolo de comunicação selecionado. Essa especificação é determinada no estágio de projeto, não de instalação, e deve ser considerada antes da chegada dos equipamentos ao canteiro de obras.
Na ausência de uma verificação de compatibilidade prévia, cada novo equipamento demanda um adaptador ou uma solução paliativa, resultando na implementação de reparos técnicos em vez de uma integração efetiva. Se a automação é considerada um critério desde a licitação, o edital já requer equipamentos com essa compatibilidade incorporada, e o custo é incluído no orçamento da obra principal, não como um aditivo contratual meses depois.
Em sua análise, Matheus Vinicius Voigt sinaliza que a gestão de projetos elétricos maduros abrange a automação como parte integrante do escopo inicial, com prazo e responsável definidos conjuntamente com o restante da obra, não sendo considerada uma segunda fase que depende de verba futura para ser implementada.
Rede automatizada só funciona se o projeto for pensado assim desde o início
Cidade que quer rede elétrica automatizada de verdade precisa decidir isso na mesa de projeto, com engenharia elétrica e gestão de projeto conversando desde a primeira reunião, não em fases separadas que se ignoram.
Afinal, esta é uma decisão que não é evidenciada na inauguração, mas que define o futuro da rede. No entendimento de Matheus Vinicius Voigt, planejar essa integração desde o início evita dependências e correções posteriores. Embora a diferença de custo não seja imediatamente perceptível na planilha inicial, ela se reflete na manutenção ao longo dos anos.