O que significa quando o idoso começa a suspeitar que estão roubando seus pertences e como a família deve reagir?

Por Diego Velázquez 6 Min de leitura

Conforme esclarece Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, poucas situações geram tanto desconforto e conflito dentro de uma família quanto o momento em que o idoso começa a acusar cuidadores, filhos ou netos de roubar seus pertences. A reação imediata de quem é acusado é de indignação, e a tentação de confrontar o idoso com a verdade é quase inevitável. No entanto, compreender o que está por trás dessas suspeitas é fundamental para responder de forma que proteja tanto o idoso quanto as relações familiares. Neste artigo, você vai entender por que isso acontece e o que realmente ajuda nessa situação.

O que está por trás das acusações de roubo?

As suspeitas de roubo no idoso raramente são invenção consciente ou manipulação deliberada. Na maioria dos casos, elas são sintomas de um processo neurológico em curso. À medida que a memória começa a falhar, o idoso frequentemente guarda objetos em lugares incomuns e, ao não encontrá-los, conclui logicamente que foram roubados, pois não tem acesso à memória do ato de guardar. Essa conclusão, equivocada do ponto de vista externo, é completamente coerente dentro da lógica do idoso que não consegue recuperar a informação sobre onde colocou o objeto.

Como detalha Yuri Silva Portela, esse comportamento é um dos sintomas mais precoces e mais consistentes do comprometimento cognitivo leve e da demência inicial, especialmente da doença de Alzheimer. Reconhecê-lo como sintoma clínico, e não como acusação pessoal, é o primeiro passo para que a família consiga reagir de forma construtiva, em vez de entrar em ciclos de conflito que não resolvem o problema e ainda deterioram os vínculos afetivos.

Como a família deve reagir no momento da acusação?

A resposta mais instintiva diante de uma acusação de roubo é a negação enfática e a tentativa de convencer o idoso de que está errado. Essa abordagem, embora compreensível, raramente funciona e frequentemente piora a situação. Isso porque o idoso que não consegue acessar a memória de ter guardado o objeto não será convencido por argumentos lógicos, e a insistência da família em contradizê-lo tende a aumentar sua agitação e sua desconfiança.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, a abordagem mais eficaz é aquela que valida a emoção sem confirmar o conteúdo da acusação. Frases como “entendo que você está preocupado com seu objeto, vamos procurar juntos” redirecionam a energia para a solução prática sem confrontar diretamente a percepção do idoso. Encontrar o objeto perdido, mesmo que em um lugar onde o idoso o colocou sem lembrar, resolve o episódio imediatamente, sem deixar rastros de conflito que prejudicam o vínculo.

Quando buscar avaliação médica?

As acusações de roubo não devem ser tratadas apenas como problema de comportamento a ser manejado no cotidiano. Elas são um sinal de alerta clínico que justifica avaliação médica especializada. Um episódio isolado pode ter explicação simples, mas um padrão repetitivo de suspeitas, especialmente quando acompanhado de outros esquecimentos, desorientação ou mudanças de personalidade, indica a necessidade de avaliação neurológica ou geriátrica para investigar comprometimento cognitivo.

Conforme analisa Yuri Silva Portela, quanto mais precocemente o comprometimento cognitivo é identificado, mais amplas são as possibilidades de intervenção, tanto para retardar a progressão quanto para planejar com antecedência as adaptações que a família precisará fazer. Por essa razão, levar o idoso ao médico após os primeiros episódios de acusação repetitiva não é exagero: é responsabilidade clínica.

Adaptações práticas que reduzem a frequência dos episódios

Algumas medidas práticas reduzem a frequência das situações de objeto perdido e, consequentemente, das acusações de roubo. Simplificar o ambiente domiciliar, reduzindo o número de objetos e locais de armazenamento, facilita a localização de pertences. Além disso, criar rotinas fixas para guardar itens importantes, como chaves, carteira e documentos, em locais sempre iguais e visíveis, reduz a probabilidade de que sejam guardados em lugares incomuns. Câmeras domésticas discretas, quando instaladas com o conhecimento e o consentimento da família, podem ainda ajudar a localizar objetos e a documentar episódios para a equipe médica.

Segundo Yuri Silva Portela, lidar com as acusações de roubo do idoso com demência exige da família uma combinação de paciência, conhecimento e suporte profissional. Não é uma situação que se resolve com boa vontade isolada, mas com estratégias baseadas na compreensão do que está acontecendo no cérebro do idoso e no que realmente ajuda, em vez do que apenas alivia a frustração de quem cuida.

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