A busca europeia por gás reacende o projeto de um gasoduto estratégico no Mar Cáspio

By Boehler Kurtz 6 Min Read

Em meados de 2022, a crise energética provocada pela guerra na Ucrânia expôs de forma contundente as fragilidades da matriz de abastecimento da Europa. Paulo Roberto Gomes Fernandes destaca que a dependência histórica do gás e do petróleo russos, somada à dificuldade de substituir rapidamente essas fontes por energias renováveis em escala suficiente, levou o continente a acelerar a procura por alternativas seguras, previsíveis e economicamente viáveis.

A reunião trilateral realizada em Ancara, envolvendo os ministros das Relações Exteriores da Turquia, do Azerbaijão e do Turcomenistão, teve como eixo central exatamente esse desafio. Energia, naquele momento, deixou de ser apenas um tema econômico e passou a ocupar lugar estratégico nas agendas diplomáticas. A Europa buscava reduzir sua vulnerabilidade e diversificar fornecedores, enquanto os países da Ásia Central viam surgir uma oportunidade histórica de ampliar sua inserção nos mercados ocidentais.

O potencial energético do Cáspio e a lacuna logística histórica

A região do Mar Cáspio concentra algumas das maiores reservas de gás natural do planeta. Estimativas apontam para cerca de 292 trilhões de pés cúbicos de reservas provadas e prováveis, além de uma infraestrutura de gasodutos já consolidada no eixo oeste, conectando o Azerbaijão, a Turquia e, por consequência, parte do mercado europeu. Ainda assim, faltava uma peça-chave para completar esse quebra-cabeça energético: um gasoduto transcaspiano ligando diretamente o Turcomenistão, na margem leste, ao Azerbaijão, na margem oeste.

Paulo Roberto Gomes Fernandes evidencia que, sem essa ligação, o gás da Ásia Central continuava dependente de rotas que atravessavam a Rússia, o que limitava sua competitividade e autonomia estratégica. A alternativa de transformar o gás em GNL sempre foi considerada economicamente inviável para travessias relativamente curtas como a do Mar Cáspio, devido aos custos elevados de liquefação, transporte e regaseificação.

O contexto econômico do Turcomenistão e a pressão por novas receitas

O ano de 2022 também marcou um momento delicado para o Turcomenistão. Excessivamente dependente da exportação de gás para poucos compradores, especialmente Rússia e China, o país enfrentava dificuldades financeiras relevantes. A falta de reformas estruturais, a resistência à abertura econômica e problemas crônicos de governança afastavam investidores internacionais e limitavam as opções de crescimento.

Nesse cenário, os recursos energéticos surgiam como o principal instrumento para reverter a crise. A transição de poder ocorrida recentemente, com a passagem do comando de Gurbanguly Berdimuhamedov para seu filho, Serdar Berdimuhamedov, levantava dúvidas sobre a disposição do novo governo em adotar uma postura mais aberta ao capital estrangeiro.

Experiência brasileira em dutos

Foi nesse contexto que a experiência internacional de Paulo Roberto Gomes Fernandes, à frente da Liderroll, ganhou relevância. Ele esteve no Turcomenistão em anos anteriores, participando de conversações técnicas sobre projetos de gasodutos que integrariam a Ásia Central a mercados como China, Afeganistão, Paquistão e Índia. Essas iniciativas incluíam soluções complexas de engenharia, como a construção de túneis extensos para atravessar cadeias montanhosas, aonde parte das linhas seria lançada em ambientes confinados.

Como a busca europeia por gás impulsiona um gasoduto estratégico no Mar Cáspio é o foco do artigo com Paulo Roberto Gomes Fernandes.
Como a busca europeia por gás impulsiona um gasoduto estratégico no Mar Cáspio é o foco do artigo com Paulo Roberto Gomes Fernandes.

A atuação de Paulo Roberto Gomes Fernandes nesses projetos evidenciou a capacidade da engenharia brasileira de lidar com desafios extremos de topografia, logística e segurança operacional. Em um momento em que a Europa buscava rotas alternativas e os países do Cáspio precisavam de parceiros com domínio técnico comprovado, esse histórico passou a ser visto como um ativo estratégico.

Mudança no cenário político e redução das resistências históricas

Durante muitos anos, a construção de um gasoduto transcaspiano enfrentou forte oposição de países como Rússia e Irã, que sabiam que a obra reduziria sua influência sobre o fornecimento de gás à Europa. Em 2022, porém, o cenário era diferente. A Rússia encontrava-se pressionada por sanções econômicas severas em razão da guerra, enquanto o Irã lidava com dificuldades internas, protestos sociais e incertezas quanto à retomada de um acordo nuclear com os Estados Unidos.

Além disso, a assinatura, em 2018, da Convenção sobre o Estatuto Jurídico do Mar Cáspio resolveu uma das maiores barreiras legais ao projeto. O acordo estabeleceu que a construção de oleodutos e gasodutos depende apenas do consentimento dos países diretamente envolvidos, e não de todos os estados litorâneos.

Infraestrutura existente e viabilidade do corredor energético

Do ponto de vista técnico, boa parte da infraestrutura necessária já estava em operação em 2022. O Corredor Sul de Gás, inaugurado em 2020, conectava o Azerbaijão à Europa por meio de uma rede de 3.340 quilômetros de gasodutos, com capacidade potencial de até 60 bilhões de metros cúbicos anuais. No lado oriental, o Turcomenistão havia concluído o gasoduto Leste-Oeste, com 780 quilômetros de extensão e capacidade para transportar cerca de 30 bilhões de metros cúbicos por ano até a costa do Cáspio.

A ligação entre essas duas estruturas, por meio de um gasoduto submarino, passou a ser vista não apenas como viável, mas como estratégica. Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, esse movimento simbolizava uma mudança estrutural no mapa energético global, na qual engenharia, geopolítica e segurança energética passaram a caminhar de forma indissociável.

Autor: Boehler Kurtz

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